
Saí de Portugal dia 28 de Dezembro de 2011. Ontem, dia 21 de Fevereiro, pisei pela última vez a Antárctida. A aventura de investigação em Livingston no projecto Permantar-2 e em King George no projecto Holoantar foi longa, exaustiva, stressante, fisicamente e psicologicamente desgastante, mas nem por isso me sinto feliz por abandonar esta parte do mundo, antes pelo contrário, o regresso tem um distinto travo amargo. A beleza natural é demasiada para gostarmos de sair daqui.
Investigar nesta parte do mundo implica abdicar de confortos, falar 4 línguas por dia se necessário e saber resolver com recursos muito limitados todos os problemas que se nos deparam. Desde sensores avariados, a tempestades de neve que nos bloqueiam o trabalho, tudo aconteceu (menos pernas partidas, ufaaa), mas tudo foi superado graças ao apoio dos países que nos receberam: Argentina (Base Jubany), Bulgária (Base St. Kliment Ohridski), Coreia do Sul (Base King Sejong), Espanha (Base Juan Carlos I), Uruguai (Base Artigas), sem o esforço e recursos gastos por eles o nosso trabalho em Livingston e King George seria impossível. Muito obrigado! Também tenho de agradecer o apoio dos restantes colegas portugueses, que não sendo nem do Permantar-2 nem do Holoantar ajudaram e deram apoio em campo (trabalhando ou apenas fazendo companhia a ver filmes após o jantar) e à distância, com o apoio logístico imprescindível da Ana Salomé.
O regresso custa porque fizemos literalmente dezenas de amigos, de imensos países, e porque o local mexe connosco. Afinal, poder voltar do trabalho e ver pinguins à porta de casa é um raro prazer. Só que para vir todos pagámos um preço alto para vir aqui, o Dermot deixou a criança com dois anos em casa, o Marc precisa de regressar por motivos familiares e eu não vejo a família, a minha companheira e os meus amigos e colegas há dois meses.
Talvez haja mais oportunidades noutra altura de regressar à Antárctida, mas para já, queremos todos voltar e eu pessoalmente quero uma bica e um travesseiro de Sintra com urgência.
Este foi o meu último post, obrigado pela oportunidade.
João Agrela, em viagem entre Punta Arenas e Ushuaia.
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